Uma Viagem Pessoal Pela História do Cinema

FILMES SOBRE A DITADURA MILITAR NO BRASIL

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daniel de oliveira em “batismo de sangue”

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Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob um infame regime militar caracterizado pela restrição à liberdade. Foram anos de chumbo, predominando a censura e a perseguição. Centenas de militantes e políticos de esquerda foram torturados, tiveram que fugir ou desapareceram, assassinados pela repressão. Enquanto isso, a propaganda institucional mapeava o país com os slogans “Ninguém segura este país” ou “Brasil, ame-o ou deixe-o”; a dupla Don e Ravel fazia sucesso em rádios e programas de televisão com o refrão: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, ninguém segura a juventude do Brasil”; nas escolas, cantava-se “Este é um país que vai pra frente”;  e o hino da Copa de 1970 panfletava “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração”. Uma completa ópera bufa.

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Ao longo dos séculos, a cultura sempre foi arma de arremesso contra o obscurantismo imposto por todo o tipo de ditaduras, tornando-se o principal catalisador do iluminar de consciências. É precisamente nesta linha de pensamento que surgiram filmes que falam da ditadura militar no Brasil ou das cicatrizes que ficaram, criticando bravamente o sistema repressor dessa época. São longas que transportam para as telas os horrores praticados e vividos por muita gente. Alguns retratam eventos e/ou personagens históricos reais; outros, de ficção, mas ao mesmo tempo possuem um sentido histórico. Publico aqui um levantamento amplo e fundamentado da filmografia que tematiza a ditadura militar brasileira. Confira, assista alguns deles, reflita e, se possível, não permita que o nosso país repita tamanha vergonha.

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O DESAFIO

(1964)

de Paulo César Saraceni

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Com Isabella, Oduvaldo Vianna Filho e Luiz Linhares. Melodrama da perplexidade da pequena burguesia intelectual face à ditadura militar instalada no Brasil em 1964, narra o romance entre a mulher de um rico industrial e um estudante de esquerda. Provocou algumas controvérsias, mas fracassou nas bilheterias.

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A DERROTA

(1966)

de Mário Fiorani

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Com Luiz Linhares, Glauce Rocha e Ítalo Rossi. Engajado no combate ao absurdo da existência da polícia política, conta a história de um homem preso e torturado física e psicologicamente por causa de uma confissão que se nega a prestar. Ele inverte a situação de vítima e tenta desesperadamente liquidar o bando que o aprisionara. Um sólido sucesso de crítica, muito bem interpretado pelos protagonistas. Filme de estréia do diretor.

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JARDIM DE GUERRA

(1968)

de Neville d’Almeida

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Com Joel Barcellos,Hugo Carvana, Dina Sfat e Glauce Rocha. Ensaio político sobre em jovem amargurado e sem perspectivas que se apaixona por uma cineasta e é injustamente acusado de terrorista por uma organização de direita que o prende, o interroga e o tortura.

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A VIDA PROVISÓRIA

(1968)

de Maurício Gomes Leite

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Com Paulo José, Dina Sfat e Joana Fomm . Jornalista que vai à Brasília cobrir a entrevista de um ministro, entrega a um membro do governo documentos comprometedores. Seguido e ferido, agoniza, recordando as mulheres que amou. Roteiro confuso e bons atores em cena.

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O BOM BURGUÊS

(1979)

de Oswaldo Caldeira

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Bom Burguês

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Com José Wilker, Betty Faria, Christiane Torloni, Jofre Soares, Nelson Xavier e Jardel Filho. Policial realizado ainda durante a ditadura militar, fala sobre a luta armada no Brasil, inspirado livremente em personagem real. Na década de 1960, um bancário usando de artifícios contábeis desvia cerca de dois milhões de dólares para a guerrilha que enfrenta o ditadura militar. Esse bancário ficou conhecido na imprensa, entre os guerrilheiros e nos órgãos de repressão, como “o bom burguês”.

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PAULA – A HISTÓRIA DE UMA SUBVERSIVA

(1980)

de Francisco Ramalho Júnior

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Com Armando Bogus, Marlene França e Helber Rangel. Um arquiteto é informado pela ex-esposa do desaparecimento da filha. O policial designado para as investigações anos antes efetuara a prisão do arquiteto e de sua amante, líder estudantil que optara pela luta armada. Banida do país, ela retornara e fora morta num confronto com a polícia. O arquiteto faz um balanço da geração que pensara um dia mudar os destinos do país.

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PRA FRENTE, BRASIL

(1982)

de Roberto Farias

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Com Reginaldo Farias, Antônio Fagundes, Natália do Valle e Elizabeth Savalla. Um homem pacato de classe média é confundido com um ativista político, preso e torturado. Enquanto isso, sua família procura notícias suas.  Lançado ainda com o General Figueiredo na presidência, ganhou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Gramado, mas erra feio ao escalar atores marcados pela televisão.

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 NUNCA FOMOS TÃO FELIZES

(1984)

de Murilo Salles

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Com Cláudio Marzo, Roberto Bataglin e Suzana Vieira. Rodado no último ano do regime militar, fala de um rapaz retirado de um colégio interno por seu pai que estava na prisão, após oito anos de estudos. Ele investiga o mistério que o cerca, em busca de sua identidade e descobre que o pai é um perseguido político. Tem boas intenções, mas não entusiasma.

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CORPO EM DELITO

(1989)

de Nuno César Abreu

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Com Lima Duarte, Regina Dourado e Dira Paes. Um médico legista frio e solitário, que presta serviços aos órgãos de repressão política, forjando laudos de morte natural para massacrados pela tortura praticada nos porões da ditadura militar, apaixona-se por garota que trabalha numa casa noturna.

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QUE BOM TE VER VIVA

(1989)

de Lúcia Murat

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Com Irene Ravache. Misturando os delírios e fantasias de uma personagem anônima com os depoimentos de oito ex-presas políticas que viveram situações de tortura. Mostra o preço que essas mulheres pagaram, e ainda pagam, por terem sobrevivido lúcidas à experiência de tortura. Para diferenciar a ficção do documentário, optou-se por gravar os depoimentos reais em vídeo, como o enquadramento semelhante ao de retrato 3×4.

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LAMARCA

(1994)

de Sérgio Rezende

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Com Paulo Betti, Carla Camurati e Selton Mello. Crônica dos últimos anos na vida do capitão do exército Carlos Lamarca. Nos anos da ditadura, ele desertou das forças armadas e passou a fazer oposição, tornando-se um dos mais destacados líderes da luta clandestina. Grande atuação de Paulo Betti.

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O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?

(1997)

de Bruno Barreto

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Com Alan Arkin, Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Cláudia Abreu e Selton Mello. O grupo terrorista MR-8 elabora um plano para seqüestrar o embaixador americano, pensado em trocá-lo por presos políticos torturados nos porões da ditadura. Concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

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AÇÃO ENTRE AMIGOS

(1998)

de Beto Brandt

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Com Leonardo Villar, Zécarlos Machado e Cacá Amaral. Lutando contra o regime militar brasileiro, quatro amigos são presos pelas forças de repressão da ditadura em 1971 e torturados durante meses. Vinte e cinco anos depois, eles se reúnem ao tomar conhecimento de que o torturador – ao contrário do que diz a versão oficial – está vivo. Decidem então seqüestrá-lo – e matá-lo. Todavia, ao ser capturado, o torturador faz uma revelação surpreendente que muda toda a história.

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DOIS CÓRREGOS – VERDADES SUBMERSAS NO TEMPO

(1999)

de Carlos Reichenbach

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Com Carlos Alberto Riccelli,  Beth Goulart e Ingra Liberato. Duas adolescentes burguesas passam uma temporada numa fazenda e acabam convivendo com o tio de uma delas, um homem misterioso, que está clandestino no país, escondido.

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CABRA-CEGA

(2004)

de Toni Venturi

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Com Leonardo Medeiros, Débora Duboc e Jonas Bloch. Um militante da luta armada é ferido numa emboscada da polícia e precisa se esconder na casa de um arquiteto, simpatizante da causa. Ganhou cinco Candangos no Festival de Brasília, entre eles, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Roteiro.

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BATISMO DE SANGUE

(2006)

de Helvécio Ratton

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Com Caio Blat, Daniel de Oliveira e Cássio Gabus Mendes. No final dos anos 1960, um convento de frades torna-se um local de resistência à ditadura. Cinco deles apóiam um grupo guerrilheiro e ficam na mira das autoridades policiais. Posteriormente são presos, passando por terríveis torturas. Melhor Diretor e Melhor Fotografia no Festival de Brasília. Grandes interpretações.

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O ANO EM QUE MEUS PAIS SAIRAM DE FÉRIAS

(2006)

de Cao Hamburger

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Com Michel Joelsas, Simone Spoladore, Caio Blat e Paulo Autran. Casal de militantes deixa o filho de 12 anos com o avô para esconder-se da repressão, prometendo voltar até o fim da Copa do Mundo de 1970. Mas o avô morre e o garoto terá de se integrar à comunidade judaica local, além de terminar por conhecer alguns militantes. Melhor Filme no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

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ZUZU ANGEL

(2006)

de Sérgio Rezende

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Com Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira e Leandra Leal. Uma estilista de moda que ganhou projeção internacional trava uma batalha contra as autoridades militares em busca do corpo de seu filho. Ele participava da luta armada, foi torturado e morto. Ótimas atuações de Pillar e Daniel de Oliveira.

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SONHOS E DESEJOS

(2006)

de Marcelo Santiago

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Com Felipe Camargo, Mel Lisboa e Sérgio Morrone. Uma estudante, um professor de literatura e um guerrilheiro ferido – que está sempre com o rosto coberto – são militantes confinados em um apartamento em Belo Horizonte. Eles confrontam suas opções afetivas e políticas, envolvendo ideologia, lealdade, traição e desejo.

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(Fontes: “História Ilustrada dos Filmes Brasileiros – 1029-1988”, de Salvyano Cavalcanti de Paiva; “Enciclopédia do Cinema Brasileiro”, de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda; e “O Discurso Cinematográfico”, de Ismail Xavier)

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4 comentários sobre “FILMES SOBRE A DITADURA MILITAR NO BRASIL”

  1. Oswaldo Caldeira disse:

    Obrigado, Antonio Nahud

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro disse:

    Excelente coletânea, mas faltou os links para baixar-mos ou assistir-mos os filmes.

  3. Marcela disse:

    Obrigada pelas informações.
    Realmente seria excelente se os links estivessem aqui.

  4. Ana Maria Magalhaes disse:

    Boa lembrança e belo trabalho.

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