Uma Viagem Pessoal Pela História do Cinema

SALA VIP: “OS MISERÁVEIS” (1935)

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CAPA

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A versão de maior prestígio entre todas as 16 adaptações para o cinema e tevê do famoso romance homônimo do francês Victor Hugo. Concorreu ao Oscar de Melhor Filme, perdendo para “O Grande Motim / Mutiny on the Bounty”. Produzido por Darryl F. Zanuck para a 20th Century-Fox, é também o melhor filme do refinado diretor – pouco conhecido hoje em dia – Richard Boleslawski. Grande diretor de atores, um dos aspectos mais relevantes desse seu drama reside na intensidade das atuações, onde se destacam com luz própria os magníficos Fredric March e Charles Laughton, como Jean Valjean e Javert, respectivamente. Laughton, um ator propenso ao exagero, tem aqui uma de suas performances mais delicadas. É incrível pensar que no mesmo ano de 1936 ele também nos daria duas outras excelentes atuações: o Ruggles de “Vamos à América / Ruggles of Red Gap” e o sinistro Capitão Bligh de “O Grande Motim”. Ainda mais impressionante é a interpretação do esquecido Fredric March. Longe do naturalismo de estrelas como Spencer Tracy e Clark Gable, treinado nos palcos, ele é seguramente um dos maiores atores da história do cinema. Suas performances transmitem profundidade, sensibilidade e técnica.

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O filme reconstrói com admirável precisão o espírito do maravilhoso clássico da literatura, dando destaque as intenções que levaram o escritor a criar sua história: a injustiça, a crueldade e a maldade do sistema social. Ele simplifica a narrativa do ex-presidiário perseguido por um inspetor fanático, mas mantém os temas essenciais do romance com espantosa força visual. Além das atuações dos protagonistas, do roteiro impecável e da direção talentosa, OS MISERÁVEIS tem outro fator para recomendá-lo: a elaborada fotografia de Gregg Toland, um soberbo profissional responsável pelas imagens de obras-primas como “Beco Sem Saída / Dead End” (1937), “O Morro dos Ventos Uivantes / Wuthering Heights” (1939, Oscar de Melhor Fotografia), “Vinhas da Ira / The Grapes of Wrath” (1940), “Cidadão Kane / Citizen Kane” (1941), “Pérfida / The Little Foxes” (1941) e “Os Melhores Anos de Nossas Vidas / The Best Years of Our Lives” (1946). Sua utilização da luz e da sombra é quase expressionista. Basta notar a poderosa sequencia em que Valjean é perseguido através dos esgotos de Paris, lembrando outra perseguição em um esgoto, a do thriller “O Terceiro Homem / The Third Man”, realizado 15 anos depois. Toland concorreu ao Oscar de Melhor Fotografia, mas injustamente perdeu para o Hal Mohr de “Sonho de Uma Noite de Verão / A Midsummer’s Night Dream”.

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fredric march como jean valjean

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O diretor Richard Boleslawski, que morreu com 48 anos de idade apenas dois anos depois desse filme ser lançado, nasceu na Polônia, estudou interpretação no Teatro de Arte de Moscou e durante vários anos foi assistente de direção, antes de chegar a Nova York na década de 1920, dirigindo peças na Broadway e ensinando o método de Stanislavksi para gente do calibre de Lee Strasberg e Stella Adler (que depois fundariam o Actor’s Studio). Chegou a Hollywood em 1929, dirigindo todos os gêneros de filmes, entre eles, a superprodução “O Véu Pintado / The Painted Veil” (1934), com Greta Garbo e George Brent; “Espiã 13 / Operador 13” (1934), com Marion Davies e Gary Cooper; “A Conquista de Um Império / Clive of Índia” (1935), com Ronald Colman e Loretta Young; o requintado e colorido “O Jardim de Alá / The Garden of Allah” (1936), de Selznick, com Marlene Dietrich e Charles Boyer; e a deliciosa comédia “Os Pecados de Teodora / Theodora Goes Wild” (1936), com Irene Dunne e Melvyn Douglas. Seu último filme, “A Última Conquista / The Last of Sra. Cheney” (1937), nos estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer, tem um elenco de estrelas que inclui Joan Crawford, William Powell e Robert Montgomery.

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fredric march e rochelle hudaon

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A década de 1930 contém muitas adaptações bem sucedidas de romances famosos: “David Copperfield / Idem” (1935), “A Conquista da Bastilha / A Tale of Two Cities” (1935), “Anna Karenina / Idem” (1935), “Horizonte Perdido / Lost Horizon” (1937), “O Morro dos Ventos Uivantes” etc. OS MISERÁVEIS é um dos melhores exemplos de como um livro deve ser ajustado para as telas. Não há nada de enfadonho ou pretensioso nele.  Dinâmico e convincente, com ritmo rápido (especialmente na primeira parte, com a rápida sucessão de cenas concisas que impulsionam a história através de dez anos de narrativa), produção rica e meticulosa, é filme para ver e rever com emoção no peito.

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charles laughton como inspetor javert

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MISERÁVEIS, OS

(Les Misérables, 1935)

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País: EUA; Duração: 108 mins.; P & B; Produção: Darryl F. Zanuck (20th Century-Fox); Direção: Richard Boleslawski; Roteiro: W. P. Lipscomb; Adaptação do romance de Victor Hugo; Fotografia: Gregg Toland; Edição: Barbara McLean; Música: Alfred Newman; Cenografia: Richard Day (d.a.); (déc.); Vestuário: Omar Kiam; Elenco: Fredric March (“Jean Valjean / Champmathieu”), Charles Laughton (“Inspetor Javert”), Sir Cedric Hardwicke (“Bispo Bienvenue”), Rochelle Hudson (“Cosette”), John Beal (“Marius”), Frances Drake (“Eponine”), Florence Eldridge (“Fantine”), Jessie Ralph (“Sra. Magloire”), Mary Forbes, Florence Roberts e John Carradine.

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Nota: ***** (ótimo)

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VICTOR HUGO

victor hugo

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OUTRAS VERSÕES CINEMATOGRÁFICAS

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OS MISERÁVEIS

(1909)

de Van Dyke Brooke

com Maurice Costello, William V. Ranous e Mary Maurice

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OS MISERÁVEIS

(1912)

de Albert Capellani

com Henry Krauss, Henri Étiévant e Maria Ventura

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OS MISERÁVEIS

(1917)

de Frank LLoyd

com William Farnum, Hardee Kirkland e Gretchen Hartman

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OS MISERÁVEIS

(1925)

de Henri Fescourt

com Gabriel Gabrio, Sandra Milovanoff e Jean Toulout

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OS MISERÁVEIS

(1934)

de Raymond Bernard

com Harry Baur, Charles Vanel e Florelle

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OS MISERÁVEIS

(Il Forzato di Tolone, 1943)

de Fernando A. Rivero

com Domingo Soler, Manolita Saval e Antonio Bravo

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3

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OS MISERÁVEIS

(1948)

de Riccardo Freda

com Gino Cervi, Valentina Cortese, Hans Hinrich,

e Marcello Mastroianni

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OS MISERÁVEIS

(1952)

de Lewis Milestone

com Michael Rennie, Debra Paget, Robert Newton,

Edmund Gwenn, Sylvia Sidney e Elsa Lanchester

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OS MISERÁVEIS

(1958)

de Jean-Paul Le Chanois

com Jean Gabin, Bernard Blier e Daniele Delorme

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OS MISERÁVEIS

(1972)

de Marcel Bluwal

com Georges Géret, Bernard Fresson e Nicole Jamet

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MISERÁVEIS

(1978)

de Glenn Jordan

com Richard Jordan, Anthony Perkins, John Gielgud,

Ian Holm e Flora Robson

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OS MISERÁVEIS

(1982)

de Robert Hossein

com Lino Ventura, Jean Carmet, Michel Bouquet,

e Evelyne Bouix

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OS MISERÁVEIS

(1995)

de Claude Lelouch

com Jean-Paul Belmondo, Annie Girardot, Jean Marais,

e Micheline Presle

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OS MISERÁVEIS

(1998)

de Bille August

com Liam Neeson, Geoffrey Rush, Uma Thurman

e Claire Danes

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2

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OS MISERÁVEIS

(2000)

de Josée Dayan

com Gérard Depardieu, John Malkovich, Jeanne Moreau,

Charlotte Gainsbourg e Asia Argento

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OS MISERÁVEIS

(2012)

de Tom Hooper

com Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway,

e Helena Bonham Carter

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fredric march

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11 comentários sobre “SALA VIP: “OS MISERÁVEIS” (1935)”

  1. Lúcia Helena Pereira disse:

    grande Victor Hugo!

  2. Chico Lopes disse:

    Preciso ver. Porque esse OS MISERÁVEIS que deu um Oscar a Anne Hathaway foi de uma chatice insuportável.

  3. Guilherme Pacelli Fiuza disse:

    Realmente é a melhor adaptação cinematográfica, com ótimas performances dos atores.

  4. Márcia Marina Monte disse:

    muito legal!!

  5. Ronald Wallace disse:

    March and Laughton are wonderful in this one!

  6. Robert Swann disse:

    best version of this.

  7. Marlene mahovlic disse:

    Matéria muito interessante, obrigada!

  8. suzane weck disse:

    Bela postagem! Parabéns,

    Beijos

    Su

  9. Alexandre Gomes Pinto disse:

    Meu caro amigo Toni Jr ( O Falcão Maltez ) !. Sempre q/ posso vejo suas postagens e admiro muito suas observações, sempre c/ muito conhecimento e inteligência
    Sou, em silêncio, um grande admirador seu, desde tempos atrás. Abraço

  10. Paulo Telles disse:

    Ótimo trabalho de pesquisa, Nahud. Já li o livro há anos, e cinematograficamente, as versões que mais admirei foram a de Fredric March e Lino Ventura, Tenho em DVD a versão com Michael Rennie mas não esta entre as melhores. Ainda não assisti a última versão com Hugh Jackman, Russell Crowe e Anne Hathaway, e embora esteja ciente que é musical, preciso conhecer para uma avaliação.

    Saudações cinéfilas

  11. Sibely Vieira Cooper disse:

    Filmaço como este hoje em dia, difícil

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